Vale a pena ver de novo

Anos atrás, um lugar onde lecionei três meses.

Lendo um trabalho do 1o. ano sobre "Indústria Cultural". Texto até que razoável:

"...os procedimentos da Indústria Cultural é principalmente a transformação da arte em mercadoria de consumo rápido a ser vendido".

Ok, erro de concordância, mas a idéia correta. Continuava:

"...mesmo porque passou a precisar de um que fosse de fácil reprodução e que agradasse todo mundo, como por exemplo a música chamada pop chiclete".

Tá, idéia principal, exemplo, ok. De repente:

"...a dialética da Indústria Cultural define-se ontologicamente na fruição (Cruz, 1987) da mercadoria elevada à estética(Haug, 1995) a partir do século 19".

Peraí. "Ontologicamente"? "Fruição"? O texto do Haug?

Hipóteses:
a) o autor tem uma formação cultural excepcional, e não seria o único caso;
b) o sujeito, além de safado, é burro e não sabe nem copiar do Google.

Aula seguinte. Chamo o autor.

"Muito legal seu texto. Legal mesmo. Só uma pergunta: quem é Haug?"

"Quem?"

"Haug, Wolfgang Haug. Você cita no seu texto".

"É? Ah, tipo, legal."

Ele sorriu. Eu sorri. O google sorriu. Fiz vodu com o texto dele.

Deve ter se formado, mas muitos anos depois.
Bravo!

 

Biblioteca.  Durante o feriado de Páscoa, freqüência mínima. Eu e os outros quatro candidatos ao "Nerd of the Year 2008".

Silêncio quebrado pelo barulho variável dos teclados. (E por eventuais alarmes de incêndio).

À minha frente, um polonês digita com progressiva fúria. Digita rápido, batendo no teclado, ímpeto à beira da raiva.

Aos poucos vai acelerando, em um crescendo, mais e mais concentrado. Mais forte. Começa a acompanhar a digitação pronunciando frases ininteligíveis.

Depois de uma seqüência avassaladora de teclas, bate uma última vez com um dedo no teclado e se joga para trás na cadeira - "Arch!", exclama em voz alta.

As outras quatro pessoas aplaudem ao mesmo tempo. Ataque coletivo de risos. Alguém grita "bravo!".

Estudar é lúdico.

Fogo

 

Biblioteca. Silêncio.

Uma sirene infernal dispara. Alarme de incêndio.

Os alunos e correm em direção às escadas de emergência. No meio do caminho, uma voz em volume desumanamente alto:

"ISTO É UMA SIMULAÇÃO DO ALARME DE INCENDIO. NINGUÉM PRECISA SE PREOCUPAR. ISTO É UMA SIMULAÇÃO".

Peraí, é só uma simulação? Por que não avi....

"DESCULPEM. O AVISO DA SIMULAÇÃO DEVERIA TER SIDO DADO ANTES DE SOARMOS O ALARME. LAMENTAMOS O INCONVENIENTE".

Obrigado por avisar. Never mind.

Noch etwas


Depois de algum tempo, dá para falar inglês com poucos escorregões. Na França, ou bem ou mal, dá para se virar. É língua neolatina, sonoridade parecida, etc. etc. etc.

Mas na Alemanha eles falam alemão. Não há pistas.

Em Frankfurt, hora de pedir comida. A outra opção era morrer de fome.

Em uma barraquinha, bolos, doces e um assado de batata. Arrumei a melhor cara-de-pau possível:

"Ein Kartoffelkuche, ein schocoladenkunche und eine diet coke, bitte".

A moça pegou um assado de batata, um generoso pedaço de bolo de chocolate e a coca.

"Noch etwas?", ela perguntou e sorriu.

Fiz cara de paisagem.

"Noch etwas?", ela insistiu.

"Nein, danke". Vai saber o que ela perguntou, melhor responder 'Não, obrigado'.

"Zwei Euro, bitte".

Paguei saí todo contente.

Ok, já posso encarar a Suécia.

Onde fica a Escola de Frankfurt

Minutos percorrendo o campus da Universidade e nada do Instituto de Pesquisa Social. Finalmente, um setor de informações.

No Guia do Mochileiro tem algumas 'expressões úteis'. Perto do balcão onde duas moças conversam, dá para montar uma frase:

'Guten tag, wes ist... das..., nein, der... Institut für Sozialforschung, bite?" e fico olhando, na esperança que eu tenha dito "onde é o instituto por favor?" e não "catei tua mãe ontem".

"Instituto de Pesquisa Social? Só um instante".

Procura no computador. Não encontra. Pega o catálogo de cursos da Universidade, não tem o endereço, vai até uma estante, procura em outro livro, consulta a colega, as duas vão até outra estante, pegam outro catálogo.

"É só o senhor dobrar a outra esquina depois da biblioteca e ir direto".

"Obrigado, bom dia".

Já na rua, uma delas vêm correndo com um papel na mão.

"Oi! Fizemos um mapa! Assim fica mais fácil".

Um mapa, feito no computador, com os pontos principais dos dois quarteirões do trajeto, flechas explicativas e a distância.

"Danke!", agradeci. E entendi muita coisa.
Euroville

Na Grã-Bretanha o feriado de Páscoa chama-se ‘Easter Break’ e dura um mês. Vale lembrar que o ano começa em setembro e não há férias em janeiro.

No Easter Break a maior parte dos estudantes aproveita para dar uma viajada. Em todos os sentidos.

Orçamento de estudante é sempre limitado, não importa o grau. Mas, contas feitas, passando o próximo mês a alpiste e sementes era possível dar uma esticada até o outro lado do Canal da Mancha.



Será um mês com alpiste.
A cidade

Quando não há uma tela entre a imagem e os olhos a impressão é que, desta vez, você está dentro do filme.



A imagem vista mil vezes ganha contornos em três dimensões, cores diferentes da tela, formas, volume.



Então isto é a realidade?



Deve ser por isso que eles estudam tanto.



Ao lado dessa igreja tem livrarias de rua. Elas têm um monte de livros e Cds usados a preço de alpiste.

Agora têm menos.

Vai ser mesmo um mês a alpiste.
Proporção

O lugar-comum diz que todo baixinho é invocado. Não é verdade, há muitos invocados que não são baixinhos.

Napoleão tinha 1,54 de altura. Com salto, chegava a 1,61. O tamanho do ego dá para medir quando se vê o lugar onde está enterrado:


Les Invalides, em Paris.



Sing, my angel of music! (resumo)

Erik era um compositor genial. Mas, por causa de sua feiúra, tinha que viver nos subterrâneos da Ópera de Paris.



Um dia se apaixonou por Christine Daaé, uma cantora. Ele a ensinou a cantar, ajudou-a a se transformar na estrela da companhia.

Erik via suas apresentações do camarote número 5:



Mas aí apareceu o visconde Raoul de Chagny, mó fofuxo. Entre o inteligente feio e o burro bonitinho, ela ficou com o segundo.

Erik ficou meio deprimido e, na falta de prozac, derrubou o lustre no meio de uma apresentação para se sentir melhor.



Em tempo: Gaston Leroux, autor do livro "O Fantasma da Ópera, se inspirou em pessoas e lugares reais. E, realmente, o que não falta naquele lugar são portas disfarçadas e passagens secretas.
Louvre - Paris

Mil vezes vista. Na televisão, no cinema, em mil formas de paródia e mil reproduções - em gravuras, folhinhas de calendário, brindes, chaveiros, guardanapos, em programas do Chapolin e desenhos do Pica-Pau. "Uma foto cada um", avisa o guarda.



Ah, sim, é isto aqui:

Paris pour les nerds

Walter Benjamin viveu os últimos anos de sua vida em Paris. Lá, escreveu sua obra-prima póstuma, o "Trabalho das Passagens", um estudo das galerias de Paris, origem dos shopping centers.

Isto é uma passagem:



A "Passagem dos Panoramas" era uma das preferidas de Benjamin. O "Trabalho das Passagens" quase foi perdido quando ele se suicidou na fronteira franco-espanhola para não ser preso pelos nazistas em 1941. O "Trabalho" só foi publicado em 1981, na Alemanha.



Em Estrasburgo, em sua homenagem, tem uma rua com seu nome.


Estrasburgo - França

Estrasburgo fica na Alsácia, região de fronteira entre a França e a Alemanha. Era da França até 1871, aí a Alemanha foi lá e invadiu. Em 1918 a França invadiu e recuperou. Em 1939 a Alemanha pegou a cidade de novo. Em 1945 a França tomou de volta. Hoje as ruas mostram placas com dois nomes - "Rue da la Paix" e "Friedenstrasse".



Em Estrasburgo viveu Albert Schweitzer, uma das poucas pessoas diante de quem é necessário se ajoelhar.

Filósofo, organista de primeira, conferencista, teólogo de renome em toda a Europa. Aos 30 anos abandonou tudo para abrir um hospital em Lambarene, África equatorial.

Respirei o mesmo ar que ele. Amen.

Frankfurt - Alemanha

Alguns leitores deste blog se lembram do Instiktut für Sozialforschung, traduzido como Escola de Frankfurt. É este prédio aí.



Nesse prédio fica a biblioteca e os gabinetes de pesquisa. O jardim da infância, a Escolinha de Frankfurt, é para trás. Um quarteirão para lá, fica a Theodor-Adorno Platz, onde está exposto o gabinete de Adorno:



Frankfurt também é a cidade natal de Goethe. Esta é a escrivaninha onde ele escreveu "Werther" e "Fausto". Brrrr.



Às margens do rio Main, que corta a cidade, fica o Museu da Comunicação. Mó interativo.


Colônia - Alemanha



Mínimo. A Catedral de Colônia faz experimentar essa sensação.



Máximo. Um quilômetro e meio depois, no Museu do Chocolate, é possível testar as obras de arte expostas. Faz sentir essa sensação.

Na volta, ao mar. Desertos.

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