0000000

 

Meio do dia, no meio da rua.

Toca o celular. No visor aparece só um "000000".

Ôpa, iesse código significa uma única coisa, confirmada quando atendo:

"Hello? Lewis?"

É um amigo de East Anglia, desejando boa sorte nos compromissos profissionais de 2010.

Pede desculpas, só tem uns minuto para falar senão fica muito caro. Deste lado, o mico "olha-como-eu-sou-esnobe" de falar em inglês em uma rua no meio de Santo André.

"Mas dizer 'boa sorte' para um amigo vale atravessar 17 mil kilômetros!", ele conclui.

O "00000" desaparece do celular.

Mas dura muito, muito tempo.

Pratos e talheres


Dividir mesas com outras pessoas em praças de alimentação tem algo de estranho. É uma intimidade forçada, inevitável.

Não tem jeito: com as mesas individuais lotadas, resta encontrar uma daquelas para quatro pessoas, preparar um semi-sorriso e perguntar "tem alguém aqui?"

A resposta varia entre um entusiasmado "Claro, pode sentar!" até um grunhido que talvez queira dizer "sim".

Sentar, ajeitar a bandeja, começar a comer. Fica um incômodo: nas outras mesas todo mundo conversando; na sua, o silêncio.

Nunca sei o que fazer nessas situações.

Não há o que conversar - afinal, você nunca viu a pessoa e provavelmente nunca mais vai vê-la. Não dá para perguntar "e aí, como vai a família?" ou "e o coringão, hein?"

Mas não dá para ignorar que tem uma pessoa ali - se você acidentalmente catapultar uma cebola na direção dela, sua presença não passará despercebida.

Resta torcer para a pessoa ser normal.

Hoje, no TopCentre, dividi a mesa com um jovem executivo com problemas. Respirava forte e mexia a cabeça, agitado.

A certa altura me disse "Dane-se meu médico, não vou comer, não vou comer, concorda?". Concordei, ele ficou feliz, sorriu, disse "Tenha uma boa tarde" e foi embora.

Porque a realidade, às vezes, dá muito medo.

Hã?

 

Outro dia, passeando nos sebos de Pinheiros - aqueles na Pedroso de Morais.

Em uma das livrarias tinha um livro mó bacana, mas estava 25 reais.

Fui para casa e encontrei na Estante Virtual por 8.

Na mesma livraria.

Voltei lá, falei do livro na Estante Virtual, disse que queria levar.

A atendente foi até a prateleira, pegou o livro, apagou o "R$ 25", escreveu "R$ 8" e vendeu.

Que parte da história eu perdi?

Estilhaços

 

Agora há pouco.

De noite, no carro, ouvindo Fly to me, do Keane.

Trânsito, tudo parado. Exceto, claro, as motos.

Uma delas se aproxima. Dá para ver pelo retrovisor: vem lá de trás, fazendo movimentos de xadrez entre os carros.

Derrapa duas vezes, se reequilibra, quase cai. Encosta de leve em um Audi, já bem mais perto.

Se arruma, dá uma arrancada espetacular, mas calcula mal os poucos centímetros do caminho e atinge com toda a força o espelho do meu carro.

O barulho da batida assusta, misturado a um grito do motoboy.

O espelho se espatifa no chão enquanto ele segue, balançando a mão.

O que incomoda não é o evento.É que tudo continua, absurdamente normal, depois.

Quixotesca - In memorian José Mindlin

 

Não lembro quando comecei a ter livros.

Uma noite de inverno em 1983, aos cinco anos, meu pai chegou em casa com dois livros cheios de figuras, "Trens" e "Aviões".  No ano seguinte, foi a vez de ganhar uma coleção sobre a vida dos animais - "O pingüim", "O urso polar", "O camelo".

Aí, aos sete anos, meu pai radicalizou de vez e apareceu em casa com o "Cosmos", de Carl Sagan. Lido, relido, re-relido, o livro foi quase fagocitado -  ficou sem capa, sem contracapa, todo destrambelhado.

A relação com livros virou quase um vício - sejam ganhos, emprestados, alugados, obtidos por meios escusos, não fazia diferença.

A relação não era de posse. Ter um livro não significa nada se o objetivo não for ler o livro. Mas há algo de fantástico quando os dois se juntam.

O volume tem seu encanto. A encadernação, a lombada, as folhas. O prazer de ler, em alguns casos, começa pela capa, pelo manuseio, pelo visual.

Alguns poucos foram comprados por impulso: livro é um produto caro.

Muitos foram procurados em perseguições quase sherlockianas, rastreados pelas livrarias de usados, vistos de relance, vigiados à espreita, finalmente laçados. Lidos no metrô, a caminho de casa - porque uma boa leitura não espera.

Falar que se gosta de ler às vezes é entendido como esnobismo. Pode ser, mas não.  É quase uma confissão; quando se lê, descobre-se o tamanho abissal do quanto falta ler.

Na medida de um peixe solúvel.

Sem título - In Memorian

 

mindlin

Break-not-to-fast

 

É esplêndido ganhar um voucher para tomar café da manhã grátis em um lugar mó-ultra-chique.

O problema é que a promoção só vale de domingo, das 7h30 às 9h30.

Seria o caso de dizer, hã... "Bom dia"?

Croc croc croc


Tenho memórias afetivas de biscoito de polvilho.

A sensação é de estar indo para Santos com meu avô, programa comum décadas atrás.

O ônibus - "Rápido São Paulo" - era no terminal Jabaquara do metrô. Aos oito anos, percorrer a linha azul era aventura.

Na plataforma, esperando o ônibus, tinha sempre um vendedor de biscoito de polvilho.

As marcas eram desconhecidas – nada de Tostines ou Nestlé, mas “Biscoitos Santa Maria” ou “Biscoitex Fábrica”.

Em rosca: biscoito de polvilho palito era considerado heresia e ignorado.

Só havia dois sabores, doce e salgado. Hoje tem umas invenções modernas tipo sabor queijo, cebola, muzzarela, caviar com ameixas.

Naquele tempo, não. O pacote do salgado era azul, a do doce, vermelha. Dúvida cromática.

Vovô comia regularmente feijoada, ovo frito, fumava,  tinha aos 65 uma saúde melhor do que eu aos 32 e por isso não tinha dúvidas, comprava os dois pacotes.

"Não conte para os seus pais nem para sua avó", era o acordo tácito.

Havia meio que uma proibição para biscoitos de polvilho – motivo suficiente para meu avô comprar. Avôs parecem se divertir desobedecendo os pais do neto.

O pacote era aberto na primeira curva da Imigrantes. Não antes, não depois, pedaço a pedaço da estrada até chegar em Santos, coberto de farelo.

Esplêndido.

Afinidades - Micropeça em um ato.

 

CENA: Almoço em um restaurante quase chique em São Paulo. Na mesa, um professor, dois editores, um assessor. Um dos editores está concluindo uma história:

 

Editor 1: "...aí eu mandei o repórter fazer a entrevista com o dono da empresa [xyz]".

Editor 2: "Meu, mas esse entrevistado é uma porta, quase analfabeto!"

Editor 1: "Tudo bem, o repórter também é".

 

CAI O PANO.

Xing-ling acadêmico

 

Sabe esses anúncios pagos do Google que aparecem ao lado de emails?

Um deles  "Faça sua monografia de pós-graduação, dissertação ou tese. Sigilo absoluto".

Não resisti e entrei no site. Não para comprar - chegou muito tarde para mim - mas de curiosidade.

O negócio é organizado. Citando várias leis, garantem que o procedimento está dentro do normal. E, de fato, qualquer pessoa pode contratar outra para escrever, seja lá o que for.

O crime talvez esteja em alguém apresentar em banca, como sendo dela, um trabalho feito por terceiros.

Há uma espécie de cardápio: tem dissertação de mestrado, tese de doutorado, trabalho de pós-graduação. Só não tem Projeto Experimental.

Que tem site especializado em trabalho de faculdade todo mundo sabe. (Tem gente até que copia trabaho da internet, pode?)

Mas o caso aqui são mestres e doutores que vão se formar. Gente que vai formar outras pessoas. 

Às vezes a realidade dá um certo medo.

Os nerds também malham no. 23583 - Panóptico

 

O bom de ir na academia com ela cheia é que os instrutores nunca reparam em um nerd escondido no canto com dificuldades na esteira.

O problema é que hoje estava completamente vazia. Esse ano não tinha arrependidos pós-carnaval. E pelo menos três instrutores desocupados.

Assim que comecei um deles parou do meu lado. Observava silenciosamente, com aquele olhar de "está errado" a cada movimento.

Tentei corrigir, desandou de vez. Ele não disse nada, continuou olhando.

Fui para outro canto da sala fazer outro exercício, ele acompanhou. Olhava fixamente para cada ação.

Mudei de exercício de novo, ele acompanhou. Só olhava da mesma maneira, um certo ar de condenação.

Finalmente, esteira.

Enquanto me segurava para não cair - a velocidade já estava 3,5 km/h - ele olhou o marcador, deu uma encarada, virou e saiu, grunhindo baixinho, fazendo anotações em um caderno.

Ficou uma sensação estranha.

Sem título no. 018745

 

A percepção do tempo acontece de maneira abrupta, sem aviso.

De repente, do nada, alguma coisa faz um sulco no tempo e mostra que há algo linear - depois daquilo, o tempo mudou de direção e não há como voltar.

Então se experimenta a finitude - vai acabar, não importa o que. E as coisas estarão irremediavelmente perdidas.

No tempo todos os acontecimentos estão no mesmo plano, o passado. Lá, distante, se equivalem - os que desviaram o curso, os bons, os ruins. À distância, o tempo os equilibra.

Mas, próximo, o tempo parece interminável enquanto passa.

Deve ser isso o que chamam de "vida".

Time present and time past / Are both perhaps present in time future,
And time future contained in time past.
If all time is eternally present / All time is unredeemable.

(T.S.Eliot, Four Quartets)

 

A região onde fica Norwich, East Anglia, tem quase 800 igrejas medievais. Em algumas os construtores devem ter passado horas no pub antes de fazer o projeto. Por isso, hoje esta Alquimia apresenta

 

As igrejas mais peculiares de East Anglia

 

Na vila de Pakefield, na região costeira, há duas igrejas grudadas, usando a mesma estrutura.

 

Em Reepham, outra vila próxima, alguém ficou tão feliz em construir a primeira igreja que fez outra, quase igual, logo em frente:

Em Dereham, bem no centro do condado, fizeram a igreja mas esqueceram de colocar a torre. Aí fizeram um puxadinho:

 

 

Em Wyndmondham (pronuncia-se "Wyn'd'am") a igreja tinha uma torre. Quando ela precisou de uma reforma, alguém teve a perspicaz idéia de deixá-la do mesmo jeito e construir outra:

 

Em Norwich (onde mais?), as pessoas não conseguiram decidir se a torre de St James Pockthorpe era quadradad, redonda ou octagonal:

 

Peculiar.

Acabou o carnaval.

 

Feliz 2010!

Dez motivos para doar sangue

 

1. Ganhar biscoitos antes de doar sangue.

2. Poder estacionar nas Clínicas por duas horas na faixa.

3. Todo mundo é uma simpatia, do atendimento à pessoa que vai tirar seu sangue.

4. O negócio é organizado e, por alguns momentos, você se sente no primeiro mundo.

5. Enquanto você dá o sangue, no som ambiente toca pop, rock e mpb. Nada de pancadão, axé do mal ou pagode.

6. A entrevista com o médico é discreta e ele não pergunta nada que você não saiba - tipo, "qual é o elemento atômico 83 da tabela periódica?"

7. Se quiser, ganha um atestado e pode tirar o dia de folga.

8. Espalha seu DNA por aí. Serão dezenas de novas pessoas assistindo Star Wars, lendo mangás, escrevendo blogs, ouvindo Beatles.

9. Ajuda alguém. Em caso de Juízo Final, isso talvez conte pontos a favor. Não havendo Juízo Final ou entidade de caráter metafísico que determine algum tipo de ressarcimento post-mortem pelo seu sangue, vai ser bom para alguém.

10. Você ganha um sanduíche e um suco na saída.

E é sempre meio estranho lidar com, tipo, sangue.

[ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]
Visitante número: