Texto / Contexto

 

Olhando bem, parece que muitos fóruns e discussões online de qualquer tipo seguem uma seqüência.

1. Alguém posta alguma coisa - por exemplo, "Preconceito racial é injustificável".

2. Outro vem, tira uma ou outra frase do contexto e critica: "Você disse 'preconceito racial'. Isso é porque você tem preconceito"

3. O criticado reclama que as frases estavam fora do contexto e replica: "Eu não disse isso, você não leu direito".

4. Começa um duelo de citações, nomes, autores e frases: "Como não li? Barthes explica que toda leitura é seletiva" "Barthes? Onde ele disse isso? Foi Habermas".

5. Até que alguém comete algum erro gramatical ou ortográfico: "Meu, o problema é que preconseito é intoleráveu"

6. E ouve: "primeiro aprende a escrever" ou "aprende português primeiro, depois escreve".

7. De repente alguém se inspira, escreve um texto enorme:

Texto enormeTexto enormeTexto enormeTexto enormeTexto enormeTexto enorme
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8. O outro responde com algo do mesmo tamanho:

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9. Até que o assunto vai acabando e ninguém lembra de atualizar a discussão.

 

É bom que existam discussões ferventes online.

Mas dá uma certa preguiça de participar.

K

 

Obrigado por estar lendo Alquimia do Verbo.

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Obrigado por estar lendo Alquimia do Verbo.

Pequenas Neuroses Cotidianas no. 20395

 

Não é detestável como as profundezas do inferno quando você vai no restaurante doido para comer seu prato favorito e justo no dia o cozinheiro esté de mau humor e a comida estava uma droga?

 

Desde a palmatória muita coisa mudou no mundo. Outras não. Mas a educação tem que se adaptar também.

Castigos como "ficar sem televisão" ou "sentar no canto" são coisas do passado. Portanto, em um serviço de auxílio psico-educacional, hoje esta Alquimia apresenta as

 

Novas maneiras de educar no século XXI


-Filho, se você não comer o alface você vai ficar de castigo tentando ligar para a operadora do seu celular.

-Filho, ou você arruma seu quarto ou não ligo a rede do seu computador.

-Recebi um email da diretora da escola. Uma câmera de segurança te flagrou matando aula. De castigo, apaguei os MP3 do seu computador.

-Nota baixa de novo?! Dá próxima vez vê se dá um Gooogle antes da prova, seu preguiçoso. Que vergonha...

-Já te falei para não bater nos coleguinhas. É errado. Nada de internet nas próximas duas horas.

-Está na hora de ter responsabilidades, filho. Eu, na sua idade, já tinha terminado Age of Empires III, Doom, Prince of Persia e Guitar Hero. E você? Que quer da vida?

 

Revisão

 

Você lê um livro durante anos.

Cita. Recomenda. Menciona.

Aí um dia chega na livraria e encontra uma tradução "revista e corrigida".

No prefácio há desculpas pelo monte de erros da versão anterior, explicando que todos os conceitos estavam errados e na verdade o autor não disse nada daquilo que, durante anos, se pensou.

É como se alguém dissesse "olha, te enganei por quinze anos mas foi sem querer. Agora é sério, tá?"

Humpf.

Alpiste

 

Alguns leitores notaram que esta Alquimia ficou fechada dez dias. Pareceu que acabou - e muita gente escreveu elogiando o fato. Mas teve um motivo.

Havia algo a fazer, missão a cumprir do outro lado do mundo - contando cada penny, passando o mês a alpiste, mas ok. Mas vale a pena viajar meio planeta para encontrar amigos lá.

Chá com velas na noite de sábado. Mas essa não era a missão.

Norwich continua a mesma, mas com algumas novidades. A catedral, por exemplo, instalou um sol no topo:

Imagine uma loja com todos as coisas relacionadas a filmes/séries/animações. Então, é esta:

O mercado de 1000 anos continua igual:

Sabe o Big Pastel, aquele que fica andando na Avenida Paulista? Ele tem um irmão gêmeo em Norwich:

Os ingleses são didáticos:

Muito didáticos:

Em alguns casos, precavidos:

A igreja ao lado do pub: típico de Norwich.  Esta é St John Maddermarket, ao lado do The Belgian Monk. Reencontrar professor Ward quase por acaso, entregar Dom Casmurro - em inglês, apesar dos protestos dele:

Um dia, escapada para Ely, uma hora de trem, onde tem uma catedral de 679:

E, sem querer, encontrar a melhor definição de "solidão" na estação de trem:

A outra escapada, com a ajuda de Darth O'Brienn, foi para Southwold. Southwold é uma pequena cidade na costa de Suffolk, East Anglia:

Lá fica a fábrica da cerveja Adnams - tão local que não vende nem em Londres:

Coisas estranhas acontecem lá também. Dizem que metade da população de Norfolk é biruta; em Suffolk, condado vizinho, não é diferente. Por exemplo: este é o Red Lion, um pub local.

Estava lá com Darth O'Brien quando uma garota apareceu do nada, olhou para mim, se aproximou e disse: "Nossa, que cabelo lindo! É natural! Sabe, sou cabelereira ("hair stylist")" - enquanto falava, tentou empiricamente verificar a verdade. Sumiu do jeito que chegou. Atônitos, Darth e eu não respondemos nada.

Depois dessa, só com reza brava. A igreja de St Edmund em Southwold é uma das poucas que escapou parcialmente do ímpeto iconoclasta da Reforma e conserva coisas originais da Idade Média - incluindo um raríssimo painel de madeira com imagens de santos e vitrais originais.

Em tempo: essas lápides são túmulos de verdade. Tem tumbas dentro da igreja também: você anda, bem, pisando em mortos. Meio tétrico.

Na volta a Norwich, uma foto do Maids Head, hotel que aparece no livro "O mensageiro", de L.P.Hartley:

Alguém se habilita?

"...sitting in an English garden waiting for the sun":

Norwich é o mais próximo que se pode chegar do paraíso sem ter que morrer no processo.

Duplos

 

Encontrei um jeito fácil de ganhar dinheiro.

Vou contratar atores para trabalhar como covers de acadêmicos famosos.

Em vez do cara fazer cover de músicos, faz de um filósofo ou sociólogo, por exemplo. Nada que treino e maquiagem não resolvam.

Imagina no mural de uma faculdade: "Hoje: Aula Inaugural com Bourdieu cover" ou, sei lá, "Não perca: Palestra com Habermas cover na próxima segunda-feira".

Seria possível até reconstituir cenas históricas: "Amanhã: vale-tudo entre Marx e Hayek cover. Ingressos à venda".

No fundo, poderia até virar um reality show: 12 covers de filósofos trancados em uma casa. Ganha o que primeiro provar a inexistência da casa. Quem chegar à conclusão de que não existe está eliminado. O público não vota, argumenta.

Vai ser fenomenal.

Syȝt thou sið-quar Ich am Ayen.

Tempus fugit

 

Há quinze anos o primeiro dia de férias é dedicado a uma volta olímpica pelas livrarias do centro de São Paulo - mesmo quando o primeiro dia de férias demora para chegar.

O roteiro é mais ou menos o mesmo: o quadrilátero Praça João Mendes X Praça Carlos Gomes, descida pela Quintino Bocaiúva, Riachuelo, Direita, Líbero Badaró, Viaduto do Chá, Xavier de Toledo. Sete de Abril, Praça da República, Rua Aurora.

De saída, uma surpresa: na Praça Carlos Gomes, dos cinco sebos, havia apenas um. O Móbile, o Machado Dias e o Quintana tinham fechado. O Liberdade se mantinha, mas parecia à beira do caos.

Na Rua Álvares Machado, ali no miolo, também estavam faltando os sebos Casa do Livro e o Nova Floresta III.

No caminho até o Sebo do Messias, vi que o Sebo Cultural tinha fechado as portas e dado lugar a uma loja de roupas - destino melhor do que o Nova Floresta II, na Brigadeiro: virou uma academia. Não uma Academia, uma academia.

Ainda na Brigadeiro, o Sebo Aliança-Messias tinha virado só Aliança e sub-locado parte da loja para um cabelereiro. O sebo, literalmente, encolheu.

De volta à Quintino Bocaiúva, um vendedor explicou que o "tinha um sebo sim, aí onde é essa loja de computadores". Era o Ornabi, de quatro andares. Não mais.

Do Cruzeiro do Sul, lá na Avenida São João, nem vestígio.

E então foi possível desconfiar de uma peculiar seleção natural.

Aquela imagem do sebo desorganizado, com livros empilhados até o teto, onde era possível garimpar títulos raros deu lugar a um modelo novo.

Os sebos que sobreviveram são livrarias que vendem usados em bom estado, títulos interessantes, catalogados, acesso digital. Ok, é assim.

Vai fazer falta o tempo em um porão frio, sombrio e escuro, escutar o pleno silêncio no centro de São Paulo.

Talvez não sejam só essas livrarias que desapareceram. Um pouco de memória, de história, desapareceu com elas.

 

PS - Em tempo: o Bagdá Books, lá no Itaim, fechou sábado.

Ouvindo vozes

 

As vozes nos trens do metrô são um barato.

Nos trens novos da linha verde finalmente regularam a altura. Até um tempo atrás cada estação era um susto.

Você estava absorto em meditações transcedentais, como todo mundo no metrô, e de repente era desmontado por "PRÓXIMA ESTAÇÃO: SÉ. DESEMBARQUE PARA O LADO DE FORA DO TREM".

Vozes eletrônicas não tem emoção.

Quando era o condutor dava para perceber se ele estava cansado, feliz, triste.

Uma vez um sujeito anunciou todas as estações da linha Azul com um entusiasmo peculiar: "Próxima estação: Vila Mariana!"; "Próxima estação: Con-cei-ção!" e assim por diante.

Outros falavam em um fio de voz semi-ininteligível: "bróimaestação.......vrigadero.....".

Era um barato também quando o cara errava: "Próxima estação, São Judas". Um instante depois "Não! Próxima estação, Tiradentes".

Sempre fiquei esperando o dia em que alguém surtasse: "Próxima estação, Santana. Vai curíntcha!"

Seria espetacular.

Modelagem

 

Uma das alegrias de criança era ir ao Micheluccio e ficar vendo o pizzaiolo fazer a pizza.

Geralmente o balcão era aberto, separado do público por uma divisória de vidro ou plástico transparente, e dava para ver tudo o que acontecia - subindo em um banquinho, visão completa.

O pizzaiolo pegava uma bolota de massa, colocava no balcão já com a farinha, polvilhava mais farinha, fazia movimentos com as mãos até a bola virar um disco.

À sua frente ficavam os ingredientes para todos os tipos de pizza. Em uma bacia, molho de tomate. Nas outras, menores e de todas as cores, todo o resto.

Não era muita coisa: naquele tempo pizza era uma coisa tipo assim calabresa, muzzarela, aliche. Pizzas de outros sabores eram consideradas heresia e quem se atrevia a pedir era queimado vivo.

Uma concha de molho de tomate espalhada pelo disco de massa. Em seguida, pegava os ingredientes nos potes e montava tudo. Um auxiliar colocava no forno.

Em algum momento desse processo eu ganhava um pedaço da massa. Era fascinante brincar com aquilo, melhor do que qualquer massa de modelar.

Eram noites frias de junho, e sempre com alguma coisa de mágico.

Mesmo naquele tempo.

Auto-promoção barata - na verdade, gratuita

 

Não tem nada a fazer na segunda-feira de noite?

Está feliz e não agüenta mais essa situação?

Então aproveite uma aula aberta grátis:

Aparece lá. É de graça.

Pães e Doces

 

Padaria do bairro tem algo de afetivo.

Ir até lá é culpa da preguiça: pegar o carro para ir na padaria, em São Paulo, não inspira.

Mesmo que não se saiba o nome de ninguém, há algo familiar - os mesmos balconistas, o chapeiro, velhinhos tomando um café e falando de futebol, rostos anônimos da região.

Aos poucos os balconistas vão conhecendo você, você vai conhecendo os balconistas. E os hábitos recíprocos. Eles sabem o que oferecer ("vai um café, professor?") você sabe como pedir ("Claro").

Há um dialeto próprio - sanduíche de queijo minas na chapa é um "mineiro quente"; pão com manteiga sem miolo é "doriana na canoa" e assim por diante.

E é o lugar onde boato vira fato:

-Só isso hoje, professor?

-Só isso. Ei, como você sabe que...

-Uma mina outro dia te viu saindo disse que você foi professor de química dela na faculdade.

E, aos poucos, se cria uma relação afetiva, movida à café e pão de queijo.

Excelente.

 

PS - Química?!

Letras e Números

 

Alguns livros precisam ser paquerados.

É como uma conquista. Na livraria, vários passos.

Primeiro, olhar. O título chama a atenção. Interessante, útil, curioso. Às vezes é amor à primeira vista, às vezes é uma paixão antiga.

Segundo, expectativa - peguar o livro da estante, olhar a capa, folhear, ouvir o barulho das folhas. Capa ruim tira pedaço do encanto - ok, o que importa é o conteúdo, mas um livro é um livro é um livro. Ponto.

Finalmente, o atrevimento de ler.

Momento crucial. Aumenta o encanto ou quebra de uma vez.

De vez em quando, acontece: o livro foi escrito exatamente com tudo o que você queria ler.

Outras vezes, o contrário. Um livro incompreensível. O assunto não é o que o título promete. Colocado de volta na estante com um misto de decepção e desdém.

Nem sempre há um final feliz - a máquina que mostra o preço é o obstáculo a ser derrotado. Com dinheiro ou paciência - o recorde está em um livro sobre um processo de canonização na Idade Média, R$ 140, paquerado por dez meses.

Mas tem alguma coisa de conclusivo em levar para casa um livro esperado por tanto tempo.

Algo próximo de um final. Fim de partida.

17.000/80

Em 1983 quatro nerds de Norwich, correspondendoa 0,03% da população de nerds da cidade, resolveram fazer o que todo jovem britânico faz aos quinze anos - monta uma banda.

O grupo lançou meia dúzia de singles independentes. Entre eles, "Phew wow!" e "More than a dream".

Na época eles não fizeram muito sucesso. Nem depois.

Mas é um registro do que foram os anos 80. Para além do bem e do mal.

meio de junho

Chocolate.

Chá e biscoitos.

Frio.

 

...porque o inverno é espetacular. Em qualquer lugar do mundo.

 

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